segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Eleitor ou "laranja"?


Será que você tem, realmente, o direito de escolha ao eleger um candidato para um cargo público?
 Uma amiga indignada com o resultado das eleições para presidente este ano: “Vou ter de agüentar tudo novamente, as mentiras na televisão, aquele monte de cartazes distribuídos pela cidade, aquelas musiquinhas chatas, e ainda me pedem para decidir quem vai ter oportunidade de roubar mais de mim!” disse ela desacreditada com a situação política por que vem passando o país.
Não é só ela, com certeza, que se revolta com tantos escândalos vindos do congresso nacional, a grande Hollywood brasileira, visto que chega a produzir mais escândalos que os artistas de Hollywood. À parte toda esta lama que estamos cansados de ver e ouvir - na verdade, nem tão cansados assim, já que não nos pronunciamos como deveríamos e poderíamos – estamos cansados também de ouvir intelectuais (ou demagogos) bradar aos quatro ventos que vivemos numa democracia e que podemos mudar tudo com o nosso voto, podemos eleger representantes éticos e capazes para realizar a difícil tarefa de dirigir a massa.
Em teoria não deixam de ter razão, mas não sabemos até onde temos de fato a oportunidade de mudar alguma coisa por meio do voto, isso porque, hão de convir que as opções além de poucas, são sempre as mesmas e pouco tem a acrescentar ou mudar o modelo implantado há décadas. Quais são as diferenças encontradas em relação aos candidatos a presidência da republica brasileira? Um quer tudo pra si e estender o que está precariamente instalado, exaltando os 80% de aprovação que, considerando os 45% da população brasileira inserida na linha da pobreza e outro tanto desse na classe média e baixa, não é de se estranhar, dados os tantos “vales” distribuídos e os programas de habitação que financiam imóveis pífios e/ou programas de incentivo aos micro-empreendedores com renda de no máximo R$36.000,00 por ano.
O outro representa a volta de um governo que a única realização mais eficaz foi a estabilização da moeda (não da economia) e responsável por uma controversa privatização oculta por uma palavra bonita e que, então, nunca foi tão falada, o tal “neoliberalismo” que queria vender tudo a quem quisesse comprar, na verdade quem pudesse comprar e, quem poderia não eram os 90% da população brasileira referidos. Um representa, portanto, o passado e o outro a continuação; um é ditatorial e o outro é para a elite.
E neste bolo fala-se muito numa mulher “arretada” que fez seu nome aparecer por ser... ela mesma. Por tentar levar ao Brasil o que ela vem fazendo há anos consigo mesma, cuidar da própria saúde. Saúde que alias não se cogitou nestas eleições. Falaram de opção sexual de candidatos, de burrice de outros, mas de propostas para melhorar a saúde da população, que alias é o grande calo do governo atual, nem uma palavra. Há quem diga que Marina Silva foi usada para levar os dois principais candidatos ao segundo turno, teorias da conspiração à parte, não tiremos o mérito desta senhora que poderia muito bem, se pudéssemos escolher de fato, ser a primeira mulher a comandar uma nação que carece de ajuda e de alguém que queira de verdade ajudá-la.
Não, a candidata verde não foi usada, nem será. Quem foi e será sempre usado é o povo, o povo que por qualquer cinquentinha se encanta e se entrega, o povo que analfabeto, sabe ler e escrever para se eleger deputado federal, o povo que está ainda, por mais que se fale, na caverna escura de Platão e não é capaz de enxergar a luz. Este povo que supostamente tem o direito a escolher, poderia muito bem ser chamado de “bode expiatório” ou “laranja”, pois é a ele dado o rótulo de eleitor e de responsável por colocar no poder os candidatos mais votados, mas quem elege realmente não é o povo é o interesse, a lei do quem pode mais chora menos. Se há alguma teoria da conspiração, e deixemos de lado o termo “teoria” e adotemos, em vez disso, “pratica”, está nisto, na manipulação do voto, na compra dele.
Foi-se a época em que o voto era comprado horas antes da votação, ou durante ela – apesar de ainda acontecer. Hoje em dia o voto é comprado ano após ano, dia após dia, basta observarmos os programas sociais alardeados pelo governo: bolsa disto, bolsa daquilo. Ora, fala-se em recuperar a dignidade da população pobre com esses auxílios, mas quem recupera a dignidade num mundo capitalista como o nosso, com R$130,00 por mês? E os beneficiários desses auxílios ficam felizes por que acham que estão tirando vantagem, já que recebem sem fazer nada. Mal sabem eles que estão fazendo muito, muito mesmo, para beneficiar não a si, mas aos poucos que ainda estão lá no topo. Mal sabem eles que esta bolsa custa-lhes caro demais.
O que poderia ser feito de verdade para melhorar o ambiente em que vivemos não é feito: dar condições para o ser humano se tornar cidadão de fato e de direito. Não se ensina o povo a ser livre, a ter consciência do seu voto, conhecer a historia dos candidatos, a votar por convicção, não por indução. É muito mais fácil ganhar eleições pseudo-democráticas com eleitores desinformados, já que não há necessidade de convencê-los da plataforma de governo ou de que será feito o melhor para o conjunto e não para o individual. Para o eleitor de hoje basta uma cara bonita, mesmo que seja por meio de plásticas, e uma mentira bem contada com a impostação correta e as palavras bem colocadas.

Carlos André Paulino.